O recurso a uma “nova solução” nasal pode melhorar a recuperação motora e reduzir as lesões cerebrais após acidente vascular cerebral isquémico. Esta é uma das conclusões de um estudo internacional liderado pela RISE-Health e pela Universidade da Beira Interior (UBI), focado numa das principais causas de incapacidade a nível global.
O trabalho científico, realizado em modelos animais, demonstrou que a administração, pouco tempo após o AVC, por via nasal, de uma única dose baixa de Nestorona® — uma substância criada em laboratório que imita uma das hormonas protetoras do organismo — reduz significativamente a extensão dos danos no tecido cerebral provocados pelo AVC e melhora a recuperação da capacidade motora.
De acordo com Sara Meirinho, investigadora da RISE-Health e líder do estudo, a via oral convencional compromete o aproveitamento da Nestorona®, fármaco atualmente utilizado para fins contraceptivos.
"Quando administrado por via oral, a Nestorona® perde grande parte do seu potencial, com menos de 10% da substância a alcançar a circulação sanguínea devido à degradação no fígado. A via nasal surge como a alternativa ideal para contornar este obstáculo. Permite evitar o metabolismo de primeira passagem hepático e possibilita que parte do fármaco alcance o cérebro diretamente através dos nervos olfativos e trigeminais, tornando esta zona anatómica altamente interessante para tratar doenças neurológicas", explica a especialista.
Segundo os investigadores da RISE-Health, a administração deste fármaco por via nasal permitiu uma chegada ao cérebro extremamente rápida. Apenas cinco minutos após a administração nasal, a Nestorona® atingiu o pico de concentração máxima no cérebro, alcançando uma exposição cerebral ao fármaco cerca de duas vezes superior à obtida por outras vias convencionais, como a injeção subcutânea.
O potencial desta descoberta, contudo, não se esgota no AVC. A equipa liderada pela maior Unidade de Investigação do país antecipa que esta abordagem possa vir a ser transposta para outras patologias.
“Além de reduzir lesões cerebrais após o AVC, há indícios de que a Nestorona® pode ter uma enorme relevância terapêutica no tratamento de outras doenças do sistema nervoso central, como a esclerose múltipla”, aponta a especialista da RISE-Health.
Os investigadores reforçam que estes dados resultam exclusivamente de estudos em modelos animais, sendo agora necessário avançar para ensaios clínicos que confirmem a segurança e a eficácia desta abordagem em humanos.
O estudo “Low dose intranasal nestorone self-emulsifying drug delivery system promotes neuroprotection in experimental stroke through modulation of glial cells”, publicado na Drug Delivery and Translational Research, é liderado por Sara Meirinho e conta com Adriana Santos, Susana Alves Ferreira, Catarina Diniz, Gilberto Alves e Graça Baltazar, investigadores da RISE-Health e da UBI, como autores. A iniciativa conta também com a participação de especialistas de Espanha e dos Estados Unidos da América.