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Duarte Simões

Presidente do Instituto Politécnico da Covilhã (1974-1979)

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"Duarte de Almeida Cordeiro Simões nasceu na cidade da Covilhã (Calçada Alta, actual Rua José Ramalho), em 28 de Fevereiro de 1927. Era um dos quatro filhos do Senhor Joaquim António Simões, Tenente e ex-combatente da 1ª. Guerra Mundial (1914-18) e da Senhora D. Maria Rosa Soares Correia Simões.

Tinha o jovem Duarte 9 anos quando a família, por motivos de saúde do pai, foi habitar para a aldeia do Ferro. Essa mudança veio a ser muito importante para ele, porque foi no contacto com as crianças da sua idade, na aldeia, que se desenvolveu o seu grande amor pela Natureza e pela liberdade, e se fortaleceu o seu espírito independente e determinado, não raro a confundir-se com alguma teimosia: desaparecia de casa durante horas, sem nada dizer aos pais, e entregava-se a longas excursões pelo rio, sempre em busca de aventura. Regressava sem sapatos, que outros garotos agora calçavam, como se isso fosse a coisa mais natural. Teve uma infância feliz, passada em intimidade com a Natureza que nunca desejou trocar por formas de vida urbana.

Aos 11 anos ingressou no Colégio Militar, onde estudou até ao 7º. ano, correspondente ao actual 12º.

Apesar de habituado a viver em liberdade, Duarte adaptou-se ao ambiente disciplinado e exigente do Colégio Militar, tirando dessa experiência o maior proveito, quer no que se refere à formação científica, quer no espírito de élite que a mesma proporcionava e desenvolvia mediante as diversas actividades culturais e desportivas, o que se tornou decisivo para a estruturação da sua personalidade, incontestavelmente forte, de trabalhador e lutador incansável. Porém, a carreira militar não o seduziu; e por isso,concluído o curso complementar dos Liceus, com a classificação final de "Bom", matriculou-se, em 1945, no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, no qual fez quatro Licenciaturas, também com a classificação final de "Bom": Administração Comercial, Finanças, Aduaneiras e Diplomacia (1951).

Cumprido o serviço militar (1951-52), iniciou a actividade docente. Primeiro, na Covilhã, como Professor provisório na Escola Industrial Campos Melo (1952-55); e depois em Lisboa, na Escola Veiga Beirão (1955-56).

Interrompeu a actividade docente durante seis anos, tendo, nesse período, exercido funções de Gestor em empresas privadas: "Beralt Tin & Wolfram, Lda.", e "Mabor-The General, Tire, Rubber & Ca." (1956-62).

Em Janeiro de 1957 o Dr. Duarte Simões casou com D.Maria da Ascenção Albuquerque Amaral Figueiredo, natural de Nelas, Licenciada em Histórico-Filosóficas. Do matrimónio nasceram três filhas: Rosa Maria Albuquerque Figueiredo Simões, Maria João Albuquerque Figueiredo Simões e Maria Paula Albuquerque Figueiredo Simões. Foi uma família feliz, na qual o convívio não era quebrado pelos problemas que sempre surgem no ambiente de trabalho. O Dr. Duarte Simões respeitava de tal forma a intimidade do lar e da família, que, mesmo quando se tornava necessário fazer serão até tarde ou ocupar com o trabalho os dias reservados à família, esta não era perturbada senão pela ausência do pai que, para não incomodar, sempre teve um escritório fora de casa. Apesar do excelente trabalho que realizara como gestor nas Minas da Panasqueira, trabalho reconhecido e louvado pela Direcção, o Dr. Duarte Simões, fiel aos seus ideais de justiça não conseguiu integrar-se num ambiente que considerava contrastante com aqueles ideais. Por isso, em 1962 regressou à actividade docente. Antes, porém, concluiu, na Faculdade de Letras de Coimbra, o curso de pós-graduação em Ciências Pedagógicas, e fez exame de Estado para Professor efectivo do Ensino Secundário. Mais uma vez, com a classificação de "Bom".

Foi Professor provisório na Escola Técnica das Caldas da Rainha (1962--63); na Escola Patrício Prazeres, em Lisboa (1963-65); e Professor efectivo da Escola Técnica da Covilhã (1965-74). Durante o mesmo período (1965--74), acumulou as funções docentes com as de gestor público e Secretário-Geral do grupo de trabalho para o Planeamento Regional da Cova da Beira.

A Cova da Beira, com os seus problemas de interioridade, foi, para Duarte Simões, objecto de continuados estudo e reflexão, no sentido da busca de soluções conducentes à solução do problema do subdesenvolvimento em que se encontravam as populações. A educação era, para Duarte Simões, a plataforma indispensável para essa mudança, e, como tal, urgia que na Região se criassem Instituições de Ensino Superior, para proporcionar aos seus naturais a possibilidade de continuarem os estudos após o nível secundário, sem necessidade de se afastarem para outros pontos do país, na maior parte dos casos para sempre. A criação, em 1974, dos Institutos Politécnicos, em Portugal, foi a ocasião para a concretização desse seu grande sonho. De facto, o Decreto--Lei nº.402/73 de 11 de Agosto, que criou novas Universidades, Institutos Politécnicos e Escolas Normais Superiores, deu à Região-Centro do País a oportunidade de ser ela própria agente de dinamização da sua luta contra o subdesenvolvimento.

O Instituto Politécnico da Covilhã (IPC) abriu uma nova etapa da história do Ensino em Portugal. O Dr. Duarte Simões foi o primeiro Director do mesmo Instituto. Tomou posse a 10 de Outubro de 1974, e até 1979 dedicou abnegadamente todas as suas capacidades físicas e mentais à grande tarefa de transformar a que em tempos fora a "Real Fábrica de Panos" numa instituição que pudesse vir a contribuir, agora noutro plano, para o ressurgimento da cidade e para o desenvolvimento da região e do país.

Vítima de doença incurável, o Dr. Duarte Simões ainda celebrou com os seus colaboradores - Docentes e Funcionários - a conversão do IPC em Instituto Universitário da Beira Interior (IUBI), em Julho de 1979.

Como lutador pelo desenvolvimento da Cova da Beira, deixou vestígios da sua passagem também no Orfeão da Covilhã, para o qual conseguiu o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian (1970-73) que tornou possível a aquisição de novas instalações e melhor apetrechamento. Mas foi sobretudo o facto de haver conseguido que esta instituição fosse oficialmente reconhecida como escola particular, que constituíu um passo importante na vida cultural da Covilhã.

Em 1970, a Covilhã celebrou o 1º Centenário do foral que a elevou a cidade, e o Dr. Duarte Simões, no exercício das suas funções de gestor público, soube bem aproveitar o ensejo para chamar a atenção dos governantes para as carências da região e para as consequências das mesmas. Se não alcançou resposta positiva para todas essas carências, não foi por lhe faltar boa vontade nem habilidade negocial. É, ainda hoje,comentado o facto de uma das iniciativas que a sua passagem pelos Serviços Municipalizados da Covilhã levaram por diante, haver sido recebida com particular alegria, por parte da população, o melhoramento da iluminação eléctrica da cidade.

Ainda por ocasião do centenário da Covilhã, deveu-se à iniciativa dinâmica do Dr. Duarte Simões a realização de um Colóquio sobre "Desenvolvimento Sócio-Económico da Cova da Beira", no qual intervieram, além do nosso homenageado, ilustres personagens do ambiente cultural, entre os quais, membros do Governo, da Autarquia local e Professores das escolas da cidade e da região. Os textos das respectivas intervenções foram reunidos num volume com as Actas do Colóquio.

Muito mais haveria a acrescentar, falando da obra do Dr. Duarte Simões: alusão é devida ao projecto para o regadio da Cova da Beira, e ao do turismo da Serra da Estrela, só para lembrar dois dos seus grandes sonhos.

Poder-se-ia pensar que, para um homem assim tão consciente das necessidades da sua região e tão fortemente interessado nos aspectos materiais da vida das populações, não houvesse tempo para o outro lado da vida, precisamente aquele que permite o sonho... Mas não era assim, com Duarte Simões. As obras de poesia publicadas - "Esperança" (1950;1968), e "Ânimo" (1969) são reveladoras, simultaneamente, de intensos anseios do espírito e de um realismo eminentemente próximo do dia-a-dia do homem e das coisas, tudo envolvido num sonho vigoroso e determinado. Não são simplesmente títulos sob que se reúnem poesias dispersas. São gritos de alma que querem remover montanhas sem que com isso se lhes retire a beleza. "Serra da Estrela - Bases para programação do seu desenvolvimento turístico", opúsculo publicado em 1975, testemunha bem aquela simbiose de sonho e concreteza realista.

Três versos de Duarte Simões, - em "Esperança" - dedicados a sua Esposa, e em diálogo com ela, poderiam servir de marco miliário, a propósito:

- "Trago-te uma pedra!

­­………………………

- Para que vieste carregado...

por ladeiras e vales que não se sobem com facilidade?

- Também trago boa vontade!..."

E no poema intitulado "TEMAS":

"Não há tema que valha o homem humano!"

Duarte Almeida Cordeiro Simões faleceu a 8 de Agosto de 1979. Repousa no cemitério da aldeia da sua infância: o Ferro."

 

 

Texto de Alice Fontinha in: Anais Universitários - Série Ciências Sociais e Humanas, número especial 1996. Covilhã: Universidade da Beira Interior.

 

 

Data da última atualização: 06-01-2016
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