A investigação da Universidade da Beira Interior (UBI) na área das Ciências da Saúde foi uma das protagonistas da reportagem alargada da RTP sobre os efeitos dos disruptores endócrinos, substâncias químicas presentes no ambiente que interferem com o sistema hormonal humano. Uma realidade que representa um risco crescente para o normal desenvolvimento, a fertilidade e a saúde reprodutiva, assim como para a progressão de vários tipos de cancros.
Sílvia Socorro e Sara Correia – Faculdade de Ciências da Saúde da UBI e RISE-Health – foram duas das especialistas ouvidas na rubrica “Linha da Frente”, que contou com testemunhos de outros especialistas nacionais e internacionais.
O trabalho emitido pela estação pública abordou os problemas causados por substâncias presentes em objetos tão variados como plásticos de uso comum, cosméticos e brinquedos, bem como em alimentos de origem animal ou vegetal.
Um dos contributos da UBI neste âmbito foi o trabalho de investigação sobre o tributilestanho, no âmbito da tese de doutoramento da aluna Mariana Feijó. Sílvia Socorro, orientadora científica do trabalho, salientou que este disruptor endócrino, persistente no ambiente, “consegue manipular o tecido adiposo periprostático, aumentando a capacidade de multiplicação, migração e invasão das células tumorais”.

A atual Vice-Reitora para a Investigação destacou também a associação entre a exposição a disruptores endócrinos e alterações do desenvolvimento sexual, como a antecipação da puberdade nas raparigas e determinadas malformações do aparelho reprodutor masculino, fatores que poderão contribuir para problemas de fertilidade na idade adulta.
“O que é que podemos efetivamente fazer, enquanto cidadãos comuns, para poder minimizar aquilo que é a nossa exposição? Primeiro de tudo, estar informado”, salientou Sílvia Socorro.
Sara Correia, especialista em biologia da reprodução, refere que os efeitos se prolongam para lá da infância, com impacto na saúde reprodutiva. A exposição pode ocorrer ainda durante o desenvolvimento fetal e comprometer a fertilidade em fases posteriores da vida, nomeadamente através da diminuição da quantidade e qualidade dos espermatozoides, algo que tem vindo a ser bastante observado. “Os valores considerados normais para um homem são hoje muito inferiores ao que eram há uns anos”, referiu.

A reportagem, que pode ser vista na plataforma RTP Play, reuniu um conjunto de testemunhos de cientistas sobre efeitos já identificados. Além dos referidos pelas investigadoras da UBI, a puberdade precoce, a endometriose agravada, a menopausa antecipada e a obesidade são alguns dos efeitos da exposição diária aos vários disruptores endócrinos atualmente em estudo.