“Vamos começar a aula. As pessoas que estão lá atrás têm de vir para a frente. Bom… se não vêm, eu espero”.
Esta é uma das muitas frases que celebrizaram o Professor António Fidalgo ao longo dos mais de 30 anos em que lecionou na Universidade da Beira Interior (UBI). E foi com ela que iniciou a sua “Última Lição”, precisamente na sala onde tudo começou, em 1991.
A plateia que encheu o Anfiteatro 2.12 reagiu ao humor do apelo com risos nascidos das memórias da experiência com um dos docentes mais marcantes das Ciências da Comunicação, entre outras áreas.
A Lição, intitulada “Universidade como vocação”, decorreu no dia 6 de maio. Família, amigos, alunos, muitos ex-alunos, membros da equipa reitoral, antigos reitores, representantes da esfera política e muitos outros preencheram o espaço em homenagem a uma figura que, além de professor, contribuiu para o crescimento da Universidade, inclusive como reitor da UBI, entre 2013 e 2021.
Coube à reitora da UBI, Ana Paula Duarte, abrir a sessão e disse que não considerava a Lição um “afastamento”, mas, antes, “a consagração de um percurso feito de ideias, de palavras, de pensamento crítico e de compromisso com a Universidade”. Um trajeto de “professor no sentido mais pleno da palavra”, enquanto formador de gerações, mestre exigente e inspirador, inteiramente dedicado à Universidade enquanto espaço de pensamento, mas também como reitor, “tendo conduzido a instituição em tempos exigentes, com sentido estratégico, convicção académica e respeito pela comunidade universitária”.
Se a sala podia ser considerada pequena, rapidamente se percebeu que não poderia ter sido outra: “Foi onde dei a minha primeira aula. Fui muito feliz aqui e, para mim, é a sala mais bonita da Universidade”.
A “Última Lição” depressa se tornou mais do que uma despedida e passou a ser uma reflexão sobre a Universidade — como chamamento, paixão e responsabilidade pública —, atravessada por memórias que passam por Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Brasil e, no presente, pela Guiné-Bissau.
António Fidalgo nasceu em Penamacor. Estudou no Seminário da Guarda e seguiu para Lisboa, matriculando-se em Filosofia. O período era o pós-25 de Abril e o contexto era o da desorganização académica da época. Decidiu sair, viajar e trabalhar fora, acumulando experiências e aprendendo línguas.
Seguiu para a Alemanha, onde encontrou um modelo académico radicalmente diferente. Formado em Filosofia, passou pelas universidades de Würzburg e de Colónia, voltou a Portugal, para a Universidade Católica.
E depois, a UBI. A partir de 1991, António Fidalgo funde-se com a academia, a que chamou “o grande amor da minha vida”. “Profissional”, detalhou depois.
Com a vinda para a Covilhã, a vocação alargou-se imenso. “Não era apenas ensinar na universidade. Era, sobretudo, dar o meu contributo à construção de uma nova Universidade”, recordou, evocando o contexto de poucos doutorados e de uma área da Comunicação então periférica numa universidade dominada pelas “ciências duras”.
O trabalho de vários anos em prol da área deu frutos com as criações de cursos, de uma unidade de investigação — o LabCom —, de um jornal online que conta com 26 anos de existência e, no topo, a criação da Faculdade de Artes e Letras, em 2000, da qual foi presidente durante oito anos.
Mas, voltando ao professor, a vinda para a UBI permitiu a António Fidalgo aplicar a sua visão do papel do docente e da academia.
“A Universidade é, antes de tudo, formação. Ensino e formação. A missão primeira da Universidade é a formação humana, cultural, científica e técnica. Por esta ordem”, sublinhou.
A ética do docente, por seu turno, implica dominar o campo e estar disponível para aprender, não vender “resultados fracos” como fortes e aplicar critérios claros e uma avaliação justa.
Outra memória viva dos seus ex-alunos prende-se com o facto de António Fidalgo os tratar pelo nome próprio.
A relação humana e personalizada é a explicação: “Sempre procurei tratar os alunos pelo nome próprio. Foi sempre uma mania que eu tive, de estar sempre a perguntar-lhes o nome, mesmo em turmas grandes”. Ao invés, também dava importância a que os alunos soubessem o seu nome. “Eles não eram o número da pauta, nem eu apenas o docente desta ou daquela cadeira. É uma relação pessoal que exige personalização de quem ensina e de quem aprende”.
Dos vários cargos que teve na UBI, sobressai a liderança da Reitoria durante dois mandatos. Numa intervenção com mais de uma hora, António Fidalgo destacou, nesta parte, duas medidas e uma luta. Apostou em fazer da Universidade uma comunidade de estudo e convivência, com a presença de estudantes nos vários espaços, alguns deles abertos para criar essa dinâmica de vivência vibrante.
“Os bares, as cantinas e demais espaços comuns da Universidade são importantes espaços de convivência de toda a comunidade académica, envolvendo alunos, professores e funcionários. As pessoas têm de se conhecer”. Nesse sentido, avançaram rapidamente para a criação e dinamização de espaços hoje marcantes na vida da Universidade.
A transformação da biblioteca num “coração pulsante”, com áreas diferenciadas de trabalho e a abertura progressiva 24 horas por dia, 365 dias por ano, a abertura do bar e da esplanada deste edifício, bem como os jardins da Malufa, foram alguns exemplos.
Outra medida foi a internacionalização. Aqui, destacou o esforço de captação de estudantes internacionais e a ambição de ver Portugal como polo universitário do mundo lusófono. Mais do que “um país de turismo à beira-mar plantado para reformados”, o país tem um papel ativo e um esforço educativo e formativo a cumprir, sobretudo junto dos PALOP, disse.
E quanto à luta? O subfinanciamento da UBI. Com bom humor, disse tratar-se de uma “não-medida”, mas que marcou, “do princípio ao fim”, a sua ação como reitor.
Percebeu-se, no tom, a veemência dessa reclamação: “Era demais! Uma injustiça arrepiante. A UBI recebia do Orçamento do Estado metade por aluno do que recebiam algumas instituições portuguesas”, e significativamente menos do que as universidades com economias de escala fantásticas. “Pus-me a mal com governantes, fui várias vezes ao Parlamento, escrevi artigos, dei entrevistas e resultou em nada. Mas, pronto, chateei-os!”
Perante decisões governamentais que estão a corrigir a “injustiça” do financiamento da UBI, António Fidalgo considera que “valeu a pena”: “Hoje em dia, já estamos a beneficiar desta luta.”
O “hoje em dia” de António Fidalgo terminou a sessão. Antes de ser aplaudido de pé, contou que está a cumprir um novo chamamento, agora na Guiné-Bissau, novamente para ajudar a fazer crescer um espaço de formação e ensino.
“Faz agora um ano que ajudo os frades franciscanos a erguer o Instituto de Estudos Superiores de Comura. Em outubro próximo começarão os cursos de Enfermagem, Filosofia e Psicologia. Estes dois últimos serão ensinados pela primeira vez naquela terra”, contou, revelando que será diretor de um desses cursos.
“Sofre-se a vocação, dizia eu no início. Pois bem, continuo a sofrê-la, sem dor, mas com muita paixão”, concluiu.
E recebeu, emocionado, a ovação da “Última Lição”, na sala onde tudo começou.